1 Você foi a Cuba quantas vezes e quanto tempo ficou? Em que ano? E com qual intuito?
R.: Visitei Cuba em duas oportunidades, em 1997 e em 2001. Tratavam-se de dois congressos internacionais, a saber: Pedagogia ’97, com cerca de 5.000 participantes, onde apresentei a pesquisa que realizava no momento, Geoprocessamento no ensino de segundo grau (na época, era 2º grau) e, em 2001, no GEO Rural 2001, onde apresentei um trabalho sobre gestão de microbacias hidrográficas com uso de SIG. Em cada uma das vezes, lá permaneci por cerca de uma semana.
2 - Como o turista é tratado em Cuba?
R.: O povo cubano é bastante alegre e receptivo. É bastante parecido com o povo brasileiro, em geral. Eles fazem questão de receber bem os turistas pois o turismo tem trazido divisas importantes para o país. Nas ocasiões em que lá estive, estavam sendo construídos enormes hotéis de luxo em Havana. Entretanto, o turismo trouxe consigo certos problemas que mais causavam preocupação para as autoridades: comercialização de produtos ilegais (charutos, rum etc.) e prostituição, ou o conhecido “turismo sexual”. A televisão cubana discutia bastante estes assuntos. Mas o caso torna-se bastante grave na medida que o salário médio do povo ficava em torno de 15 dólares e os turistas – especialmente franceses e alemães – se deleitavam com moças cubanas por valores pouco superiores...
3 - O jornalista Diego Casagrande disse que "o povo de Cuba vive numa latrina". Você concorda com essa definição? Qual o motivo?
R.: Este tipo de percepção é comum para pessoas que teimam em ignorar culturas e/ou condições diversas daquelas que conhecem e/ou vivenciam. Uma primeira visão da situação da sociedade cubana, especialmente em aspectos relacionados a moradia, transporte e consumo em geral é, para muitos, chocante. Até eu, devo admitir, imaginava uma outra estruturação daquela sociedade antes de conhecê-la pessoalmente. Nos primeiros dias em que lá estive, há pouco mais de 10 anos, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a “pobreza” do povo. As casas eram muito antigas e desprovidas de pintura, com reboco caindo e roupa pendurada por todos os lados. Lembrava bastante nossos cortiços. Entretanto, devemos lembrar que Cuba atravessava tempos difíceis naquela época. Havia (não sei como as coisas andam hoje em dia) enormes restrições para tudo. Desde alimentos, até produtos de higiene, tintas, lâmpadas entre outros. Para se ter uma idéia da situação, todos os dias ocorria um “apagón” em um bairro de Havana para reduzir o consumo de energia, ou seja, não existia energia suficiente... Enfim, a situação refletia uma pobreza generalizada, mas como disse um cubano: “somos pobres, não miseráveis”. Assim, depois que a gente se acostuma com este quadro, inicia-se um processo de enxergar a situação com outros olhos. Para alguns, pobreza é sinônimo de marginalidade, no sentido pejorativo da palavra. Mas isto vai depender de cada um, pois cada qual vê aquilo que quer. Acho que podemos comparar a “pobreza” da população cubana com a situação que eu vivenciei na minha infância/adolescência. Mesmo pertencente à dita “classe média”, eu possuía um par ou, no máximo dois pares de sapatos (para ir à igreja e para ir à aula) e um de tênis (para educação física e jogar futebol). Na época, tínhamos que usar “galochas” em dias de chuva para não estragar os sapatos... Igualmente, era normal se ter umas poucas calças (uma “boa” para os domingos e outras 2 ou 3 para ir ao colégio – uniforme). Muitas vezes, camisas, calças etc. possuíam remendos... Isso tudo nunca era visto como uma “afronta” à dignidade humana como certas pessoas querem hoje colocar. Era tão somente uma outra forma de consumo; uma outra maneira de se valorizar as coisas. Vivíamos numa época diferente da maluquice consumista atual, a qual, o tal Diego Casagrande parece insistir em defender.
4 O que tem a dizer sobre os traços culturais da ilha?
R.: Como disse, o povo cubano é bastante alegre. Lembra o brasileiro em geral. A cultura cubana está ligada em parte à cultura hispânica e, em outra, à cultura africana. Isto se reflete nas artes em geral. A música caribenha está presente por todos os lados lembrando um pouco a Bahia, quem sabe. Outra característica que chama a atenção é a arquitetura, especialmente a de antigas residências da população mais rica. Nas cercanias do “Malecón” (avenida beira-mar de Havana), a Unesco está auxiliando na restauração dos prédios que pareciam ter sofrido um bombardeio. No geral, o que mais surpreende é a cultura geral que o povo cubano possui. Pode-se conversar com qualquer pessoa na rua que esta lhe dá detalhes da história do país. De quebra, muitas vezes, demonstra bons conhecimentos sobre o Brasil, por exemplo. Isto é explicado pelo excelente nível de ensino da população.
5 Nesse tempo em que ficou na ilha, teve a oportunidade de perceber qual a imagem que Fidel Castro tem perante a população?
R.: No geral, sim. Conversei com diversas pessoas a respeito da situação de Cuba, em geral procurando “atiçar” um possível descontentamento... A maior parte destes com quem conversei defendem “el comandante”. Como disse antes, qualquer pessoa na rua conhece a história de Cuba, da revolução, do embargo norte-americano etc. Dos poucos que falaram mal do governo, uns eram vendedores “clandestinos” de rum e charutos e uma moça era dona de um “paladar” (pequeno restaurante privado – com autorização do governo – para turistas). Ou seja, tratava-se de pessoas que tinham contato com moeda estrangeira (dólar). Podes pensar, assim, em pessoas que “experimentaram” um gostinho da grana capitalista... A maior reclamação advinha de certos cupons que eles dipunham para comprar os produtos que necessitavam (higiene, alimentação etc.) Muitas vezes, por diversos fatores, certos produtos estavam em falta. A dona do tal paladar disse-me que estava tentando comprar creme dental há dois meses, por exemplo. Ela havia esquecido de comprar na época que o produto estava disponível e acabou ficando sem o mesmo. Este exemplo pode mostrar um pouco da realidade que o povo cubano enfrenta (ou enfrentava na época). Algo semelhante ao que ocorre em tempos de guerra. Mas, se pararmos para pensar, eles estão quase que inseridos num contexto assim...
6 Cuba tem problemas assim como todos os países os têm. A qual fato você atribui as dificuldades cubanas? Ao embargo norte-americano ou ao regime comunista da ilha?
R.: As dificuldades enfrentadas por Cuba advém de diversos fatores. É possível que o principal deles seja realmente o embargo imposto pelos EUA pois este “respinga” em outros países que desejariam estreitar suas relações com a ilha e são “aconselhados” pelos EUA a não fazê-lo... Após a “derrocada” da antiga URSS, Cuba quase quebrou. A URSS era o maior parceiro comercial de Cuba e, do dia pra noite, este laço foi quebrado. Eu próprio constatei isto em 1997 quando passei por uma nova avenida que possuía luminárias até um determinado ponto. A partir dali, os postes de metal estavam depositados no canteiro central (já em processo de oxidação) por falta de luminárias e petróleo (máquinário etc.) Por incrível que pareça, eles não tinham dinheiro para instalar os postes de luz... Assim, pode-se compreender a visão que um Diego Casagrande ou um Percival Puggina possui da ilha, não é? Outro grande problema que eles têm de enfrentar anualmente são os furacões que assolam o país. As plantações podem sofrer bastante com estes fenômenos, sendo muitas vezes arrasadas, o que ocasiona quebra de safra. Como eles não podem (ou sequer conseguem) comprar coisas de outros países, naquele ano tal produto acaba não sendo oferecido. De igual sorte, uma catástrofe natural pode ocasionar despesas extras e levar à redução de ofertas de outros produtos (como no exemplo do dentifrício). Enfim, como pode ser entendido, todo e qualquer sistema de governo tem seus aspectos positivos e negativos. Por que a China, que também é um país “comunista” está em franca ascenção e Cuba está estagnada? Por que os EUA são o que são e o Haiti “não funciona”, mesmo ambos estando sob a ideologia capitalista?
7 Fidel Castro renunciou ao poder por motivos de saúde e em seu lugar assumiu seu irmão Raúl Castro. Como você imagina o futuro de Cuba após este fato?
R.: Acho que não haverá grandes mudanças na situação da ilha. Talvez alguns avanços possam ser obtidos, mas estes se darão, caso ocorram, em função do momento atual atravessado pela humanidade e não em função da presença ou ausência de Fidel Castro. Há uma tendência geral de estreitamento de relações internacionais. A Venezuela tem negociado diretamente com Cuba, o que provavelmente trará impactos substanciais para a economia do país especialmente no que diz respeito à questão do petróleo. Outras nações, inclusive o Brasil, procuram aproximar-se de Cuba. Os EUA já não conseguem mais exercer seu poder de pressão como há alguns poucos anos, o que pode ser constatado pelas sucessivas quedas de sua moeda. Tais circunstâncias permitem um lento processo de avanço nas relações entre os países, o que pode tornar possível avanços significativos para a sociedade cubana.
Colunista -Leonardo Lemes


4 Comments:
Pessoal
Queria parabenizar oS dois Léos da geografia. O Maurer pela nova "cara" do nosso blog, muito bonito mesmo, espero que os alunos do curso gostem e usem este espaço, e o Léo Lemes, pela entrevista com o professor Fitz, muito boa entrevista mesmo. Na maioria das vezes se apegamos apenas a palavras e esquecemos que a outra metade disso é a experiência, e isso foi postado na entrevista...Parabéns!
Só um coisa gente, não sei porque saiu Paulo ali em cima, acho que até o google confunde meu nome!! - é PEDRO PAULO!! hehehe
abraços
Bom...
Léo, parabéns pela iniciativa!!! Prof. Fitz muito obrigada por dividir conosco sua experiência!!!! Espero um dia poder visitar CUba e também compartilhar com vcs o que verei por lá!!! Um dia... e esse dia há de chegar !!!!!hehehe
Esquerdista declarada, com otodos sabem, senti-me muito mais "localizada" com a explanação do prof. Fitz. Realmente, cada um vê o que quer, já dizia Mário Quintana - "Cada um enxerga como pode".
A comparação de China e Cuba para mim foi perfeita! Assim como EUA e Haiti!!!!
Acho que dispensa maiores comentários!!!!
Muito obrigada Léo, novamente...
Bjos
Paula
Acredito que uma democracia se faz onde todos têm direito à opinião. E como tê-la se não coletando o maior número de informações - e por que não opiniões - possíveis sobre determinado assunto.
Como estudante de comunicação sei bem que é impossível ser imparcial, somos seres humanos e contamos o que nossos olhos nos mostram, nenhuma pessoa é dona da verdade.
Admiro as ações que, como essa entrevista, mostra a opinião de alguém inteligente, que merece ser ouvido.
Não precisamos concordar, apenas entender que todos tem seus motivos para acreditar num ideal.
Parabéns.
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